Ecos da Narrativa | A Odisseia: a jornada que nunca deixou de ser contada

 



Antes de existirem filmes, jogos e grandes franquias modernas, uma das primeiras grandes jornadas da humanidade já era contada há quase 3 mil anos: a história de um homem tentando voltar para casa depois de uma guerra que mudou tudo.

Algumas histórias parecem terminar quando fechamos um livro, quando os créditos começam a subir ou quando desligamos o videogame. Outras continuam caminhando ao nosso lado muito tempo depois. A Odisseia é uma delas.

Essa história atravessou os séculos porque nunca falou apenas sobre uma viagem. A jornada de Odisseu continuou encontrando novas formas de nos alcançar, reaparecendo em livros, filmes, conversas, jogos. E, às vezes, também em momentos da vida nos quais percebemos que ainda enfrentamos os mesmos medos, conflitos e desejos que já acompanhavam aquela antiga volta para casa.

Não importa quantas vezes seja recontada ou quantos séculos tenha atravessado: ela continua encontrando novas formas de conversar conosco.

 

Imagem de divulgação do filme A Odisseia (2026) de Cristopher Nolan

Foi exatamente essa sensação que tive ao reler A Odisseia e, pouco depois, assistir à adaptação dirigida por Christopher Nolan. Em nenhum momento minha preocupação foi descobrir se o filme reproduzia fielmente o poema ou se determinada cena era idêntica ao texto original. A pergunta que permaneceu comigo era outra: como uma história escrita há quase três mil anos ainda consegue parecer tão atual?
 
Talvez a resposta esteja justamente no fato de que A Odisseia nunca foi apenas uma história sobre deuses, monstros ou aventuras pelo mar. Ela fala sobre algo que continua fazendo parte da experiência humana: o desejo de encontrar um lugar ao qual possamos chamar de lar, a necessidade de enfrentar obstáculos que nos transformam e a busca constante por compreender quem nos tornamos ao longo do caminho.

É por isso que essa mesma história continua sendo contada até hoje.

Mudam os cenários. Mudam as roupas, as tecnologias, as espadas dão lugar às armas de fogo e os navios se transformam em naves espaciais. Ainda assim, a essência permanece. Continuamos acompanhando personagens que deixam para trás uma vida conhecida, enfrentam desafios que parecem impossíveis e retornam diferentes da pessoa que eram quando partiram. 
 
Matt Damon caracterizado como Odisseu (A Odisseia 2026).
 
Talvez seja justamente por isso que a Odisseia nunca deixou de ser relevante. Seus ecos ainda podem ser encontrados em narrativas que, à primeira vista, não possuem absolutamente nenhuma relação com a Grécia Antiga.

Esses ecos também atravessam histórias modernas. Estão em O Senhor dos Anéis, na transformação de Frodo, que retorna de sua jornada incapaz de voltar completamente à vida que conhecia. Estão em Star Wars, quando Luke Skywalker abandona a segurança de uma existência comum e parte em busca de seu lugar no mundo. E estão em God of War, quando Kratos percebe que sua maior batalha já não é contra deuses e monstros, mas contra o próprio passado.

Também podem ser encontrados em obras como Shadow of the Colossus e The Last of Us, que seguem caminhos completamente diferentes, mas compartilham uma mesma verdade: as maiores transformações de uma jornada nem sempre acontecem no mundo ao redor do herói. Muitas vezes, acontecem dentro dele.

É por isso que A Odisseia continua viva até hoje: não apenas porque inspirou inúmeras obras, mas porque continua falando sobre as jornadas que nos transformam, inclusive aquelas que nunca escolhemos começar, e sobre aquilo que descobrimos a respeito de nós mesmos ao longo do caminho.

Talvez a força dessa permanência esteja justamente nisso: muito antes dos conceitos que hoje usamos para compreender emoções, personalidade e comportamento, Homero já representava conflitos humanos que ainda reconhecemos em nós mesmos.

 

O nome de Homero atravessou quase três mil anos, tornando-se sinônimo de uma das maiores tradições narrativas da história.

Busto romano de Homero, inspirado em um original grego.

E poucas histórias atravessam tantos séculos sem perder a capacidade de dialogar com novas gerações. Quando isso acontece, é difícil não reconhecer a importância de Homero. Independentemente dos debates acadêmicos sobre sua vida ou sobre a autoria das obras atribuídas a ele, a tradição preservou seu nome ao longo de quase três mil anos acompanhado por uma obra que permanece relevante para diferentes gerações.

Não por acaso, o próprio termo “odisseia” foi incorporado ao vocabulário de diversas línguas para designar uma jornada longa, difícil e repleta de desafios. Poucas obras deixam uma marca tão profunda a ponto de transformar um título derivado do nome de seu protagonista, Odisseu, em uma palavra usada até hoje.

Mais do que escrever uma grande história, Homero ajudou a moldar a maneira como o Ocidente passou a compreender a aventura, o heroísmo e a própria ideia de jornada. 

Ao longo da história, o heroísmo quase sempre foi associado à força, à coragem diante do perigo e a capacidade de superar adversários pela superioridade física. A própria mitologia grega está repleta de personagens que personificam esse ideal, como Hércules e Aquiles. É justamente neste ponto que Homero, rompe com a tradição e escolhe seguir um caminho diferente.

Odisseu não possui a força de Hércules nem a invulnerabilidade de Aquiles. Sua principal arma é a inteligência. Em vez de vencer pela força, vence pela capacidade de observar, adaptar-se e encontrar soluções quando tudo parece perdido. Talvez seja justamente por isso que ele continue tão próximo de nós.

 

O Cavalo de Troia tornou-se um dos maiores símbolos da inteligência atribuída a Odisseu. Mais do que vencer pela força, a tradição clássica eternizou a ideia de que algumas das maiores conquistas nascem da capacidade de imaginar o improvável.

Pintura: The Procession of the Trojan Horse into Troy, de Giovanni Domenico Tiepolo.

 
A maioria das pessoas jamais precisará enfrentar um ciclope, desafiar sereias ou escapar da ira de um deus. Mas todos nós conhecemos a sensação de precisar improvisar diante de problemas que não escolhemos viver. Todos já tivemos planos interrompidos, caminhos alterados e momentos em que a única opção era seguir em frente, mesmo sem saber exatamente onde chegaríamos.

Essa talvez seja a verdadeira aventura de Odisseu.
 
Ulisses cegando Polifemo, detalhe da Sala de Polifemo, afresco de Pellegrino Tibaldi.
 
Enquanto relia alguns trechos do poema, foi impossível não lembrar de algo que encontro frequentemente estudando Psicologia: somos profundamente transformados pelas experiências que vivemos. Nossa identidade não nasce pronta. Ela vai sendo construída pelas escolhas que fazemos, pelas perdas que enfrentamos e pelas dificuldades que conseguimos superar.

Quando Odisseu finalmente retorna para Ítaca, ele não é o mesmo homem que partiu para a Guerra de Troia. A viagem mudou sua maneira de enxergar o mundo e, principalmente, a si mesmo.

Talvez seja justamente por isso que continuemos nos reconhecendo nele. Porque todos nós, em algum momento da vida, voltamos para casa sendo pessoas diferentes. 
 

Toda jornada nos transforma. Às vezes, voltar para casa significa descobrir que já não somos a mesma pessoa que partiu.

Pintura: Odysseus and Argus, de John Reinhard Weguelin (1849–1927). A obra retrata o momento em que Odisseu retorna a Ítaca, disfarçado após vinte anos de ausência, e é reconhecido apenas por seu velho cão, Argos.

 
A relevância de Homero é tão grande, que séculos depois, Joseph Campbell percebeu que esse movimento de partida, provação e transformação aparecia repetidamente em mitos e narrativas de diferentes culturas. Ele chamou esse padrão de Jornada do Herói. Mais do que uma fórmula para contar histórias, Campbell identificou algo que parece fazer parte da própria experiência humana: crescer significa atravessar o desconhecido e retornar transformado.

Depois que compreendemos a estrutura descrita por Campbell, mas que muitos de nós talvez já tivéssemos percebido intuitivamente, torna-se quase impossível deixar de percebê-la em outras histórias. Não porque todas elas tenham sido copiadas de A Odisseia, mas porque compartilham a mesma essência narrativa. A jornada de Odisseu, afinal, não permaneceu isolada no passado, sua estrutura continuou reaparecendo, com novos personagens, novos mundos e diferentes formas de representar os mesmos medos, escolhas e transformações.

 

Luke Skywalker deixando Tatooine. Mais do que o início de uma aventura, esse momento representa o primeiro passo da transformação que Joseph Campbell identificou como a Jornada do Herói.
 
Um dos exemplos modernos mais conhecidos está em Star Wars. George Lucas encontrou nos estudos de Campbell uma referência importante para construir a jornada de Luke Skywalker. Assim como Odisseu, Luke deixa para trás o mundo que conhece, atravessa perigos, encontra aliados, sofre perdas e descobre que a maior transformação da aventura acontece dentro dele. 
 
A partida de Luke não emociona apenas porque marca o começo de uma grande aventura. Ela nos toca porque representa uma experiência universal: o instante em que alguém precisa abandonar a segurança do que conhece para descobrir quem realmente pode se tornar.

É essa mesma estrutura que atravessa obras de diferentes épocas. Ela aparece em Frodo aceitando carregar o Um Anel, em Harry Potter deixando para trás a vida que conhecia e até em Link, que parte para salvar Hyrule sem imaginar como aquela jornada o transformaria. Cada história segue seu próprio caminho, mas todas compartilham a mesma ideia: ninguém retorna igual depois de enfrentar o desconhecido.

Talvez seja justamente por isso que algumas narrativas nunca envelheçam. Elas continuam relevantes porque traduzem em histórias aquilo que todos nós vivemos de alguma forma: a necessidade de mudar, de enfrentar o desconhecido e de construir uma identidade ao longo da vida.

Nenhum desses personagens é Odisseu. Ainda assim, todos parecem caminhar pela mesma estrada aberta por Homero há quase três mil anos. Grandes histórias mudam de cenário, de linguagem e de protagonistas, mas continuam falando sobre as experiências que nos transformam.

E talvez seja esse o verdadeiro motivo de A Odisseia continuar viva. A jornada de Odisseu atravessa o tempo porque pode assumir novas formas sem perder aquilo que sempre a tornou humana.

As histórias mudam.

A jornada permanece.

É justamente por isso que certas obras continuem nos emocionando, independentemente da época ou do meio em que são contadas. Livros, filmes, séries e videogames podem utilizar linguagens diferentes, mas todos têm a capacidade de dar forma às mesmas experiências humanas: coragem, perda, amor, sacrifício, identidade e esperança.

E talvez seja exatamente isso que grandes narrativas façam. Elas não sobrevivem porque permanecem iguais. Sobrevivem porque cada geração encontra uma nova maneira de dialogar com elas. 

 


É aqui que a adaptação de Christopher Nolan pode ganhar um significado especial para uma nova geração. Mais do que transformar um clássico da literatura em um grande espetáculo cinematográfico, o diretor demonstra que ainda existe interesse em revisitar essa jornada. Não para substituí-la, mas para apresentá-la a um novo público, utilizando a linguagem do cinema.

Cada época encontra sua própria forma de contar as mesmas histórias.

Foi assim com o teatro.

Com os livros.

Com o cinema.

Com os videogames.

E continuará sendo assim enquanto existirem pessoas dispostas a ouvir uma boa história.

No fim das contas, talvez a pergunta nunca tenha sido por que A Odisseia continua viva.

Talvez a pergunta correta seja outra.

Por que continuamos precisando dela?

Talvez porque todos nós, em algum momento, também estejamos tentando encontrar nosso caminho de volta. Nem sempre para um lugar físico, mas para uma versão de nós mesmos que ficou perdida em alguma etapa da jornada.

É por isso que histórias como essa nunca envelhecem.

Elas mudam de idioma.

Mudam de formato.

Mudam de mídia.

Mas continuam oferecendo exatamente aquilo que sempre ofereceram: um espelho onde podemos reconhecer nossos medos, nossas esperanças e nossas transformações.
 
 
Algumas histórias realmente terminam quando chegam ao fim. Outras continuam ecoando muito depois da última página, da cena final ou dos créditos. 
 
Elas atravessam o tempo, encontram novas formas de serem contadas e, sem que percebamos, passam a fazer parte da nossa própria história.
 
Talvez esse seja o maior legado de A Odisseia: lembrar que, mesmo separados por quase três mil anos, ainda somos capazes de nos reconhecer na jornada de alguém que apenas queria voltar para casa.
 
 

📢 Acompanhe o Backup News

Receba notícias, trailers, rumores e novos conteúdos diretamente no WhatsApp.

Acessar o canal no WhatsApp

 
 

Conheça a obra que atravessou milênios

Se este texto despertou sua curiosidade, talvez seja a hora de conhecer A Odisseia em sua forma original. Por mais que suas influências estejam espalhadas por filmes, livros e jogos, nenhuma adaptação substitui a experiência de ler a obra que deu origem a tantos ecos na cultura.

A edição da Penguin Companhia foi a escolhida para este texto por reunir uma tradução de qualidade, notas explicativas e um excelente material de apoio, tornando a leitura mais acessível sem abrir mão da fidelidade ao original.

Transparência


O link abaixo é de afiliado. Isso significa que, caso você decida comprar por ele, recebo uma pequena comissão sem qualquer custo adicional para você. É uma forma simples de apoiar o trabalho do site e a produção de novos conteúdos como este.
 
Caixa Homero – Ilíada & Odisseia
 

Comentários

Postagens mais visitadas