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ANÁLISE BLOODBORNE | PS5 BASE PLATINA + 100% DA DLC "THE OLD HUNTERS"
Introdução
Lançado em 2015, Bloodborne foi desenvolvido pela FromSoftware, dirigido por Hidetaka Miyazaki e publicado pela Sony Computer Entertainment como um exclusivo de PlayStation 4.
Em uma época em que o estúdio já havia conquistado milhares de jogadores com Demon's Souls e Dark Souls, Bloodborne surgiu mostrando que a fórmula Souls ainda tinha muito espaço para evoluir.
Em vez da fantasia medieval, Miyazaki apostou em um universo inspirado na arquitetura gótica vitoriana, no horror clássico e, principalmente, no horror cósmico das obras de H. P. Lovecraft. O resultado foi uma experiência completamente diferente de tudo o que eu havia jogado até então.
Em Bloodborne assumimos o papel de um Caçador que chega à cidade de Yharnam em busca do famoso Sangue Curativo, uma substância conhecida por realizar curas milagrosas.
Porém, logo nos primeiros minutos percebemos que aquela cidade está condenada. Uma misteriosa doença transformou grande parte da população em feras sedentas por sangue durante a chamada Noite da Caçada.
O que começa como uma simples caçada por sobrevivência rapidamente se transforma em uma jornada sobre religião, fanatismo, ambição, culpa e conhecimento proibido. Mas o que mais me impressionou não foi a história em si.
Foi a forma como ela é contada.
Uma narrativa que me fez prestar atenção em cada detalhe
Uma das maiores qualidades de Bloodborne, na minha opinião, é que ele nunca trata o jogador como alguém que precisa de tudo mastigado.
Não existem longas cutscenes explicando o que aconteceu em Yharnam.
Não existe um personagem que aparece para contar toda a história.
O jogo simplesmente entrega pequenas pistas e espera que nós façamos o resto.
Durante toda a campanha eu tive a sensação de estar montando um enorme quebra-cabeça. Cada descrição de item que eu lia, cada conversa com um NPC, cada área nova explorada respondia uma pergunta, mas levantava outras duas.
Isso fez com que eu explorasse absolutamente tudo.
Passei a prestar atenção em detalhes da arquitetura, em estátuas, em símbolos religiosos, nos nomes dos chefes, na descrição das armas e até mesmo na posição de alguns corpos espalhados pelo mapa.
Pouquíssimos jogos trabalham tão bem essa necessidade de exploração por curiosidade afim de montar esse quebra cabeça narrativo.
Mas quando as peças finalmente começam a se encaixar...
Bloodborne mostra que praticamente não existem finais felizes em Yharnam.
A tragédia da família Gascoigne
O primeiro momento em que percebi a força da narrativa de Bloodborne aconteceu logo no início da campanha.
Ao conversar através da janela de uma casa com um dos NPCs, encontramos uma pequena garota procurando desesperadamente pelos pais. Ela nos entrega uma caixinha de música e diz que aquela melodia sempre acalmava seu pai. Logo após, ela nos conta que sua mãe também está desaparecida e que é possível identificá-la por conta de um broche vermelho chamativo que ela usa.
Naquele instante eu pensei que fosse apenas mais uma simples missão secundária jogada ali sem muito propósito. Nada muito diferente do que estamos acostumados a ver em outros jogos.
Algum tempo depois cheguei ao confronto contra o famoso Padre Gascoigne.
Foi durante esse encontro que percebi como Bloodborne consegue transformar um simples chefe em algo muito maior. Pequenos detalhes espalhados pelo cenário, itens e interações opcionais revelam que existe uma história profundamente humana por trás daquele personagem. Sem recorrer a longas explicações, o jogo conecta diversos acontecimentos e deixa que o próprio jogador compreenda a dimensão daquela tragédia.
Foi nesse momento que entendi como Bloodborne constrói sua narrativa.
Ele não quer apenas contar uma história.
Ele quer que o jogador participe dela.
O jogo nunca mostra essa história em particular assim como outras em uma cutscene.
Nunca explica nada.
Ele apenas espalha pequenos fragmentos pelo mundo e deixa que o próprio jogador compreenda as tragédias e os horrores que assombram os habitantes de Yharnam.
Foi nesse momento que entendi como Bloodborne constrói sua narrativa.
Ele não quer apenas contar uma história.
Ele quer que o jogador participe dela.
Yharnam conta histórias sem dizer uma única palavra
Depois desse episódio comecei a enxergar Yharnam com outros olhos.
Percebi que praticamente todo personagem daquele mundo carregava alguma tragédia.
Não existem heróis.
Não existem pessoas destinadas a salvar a cidade.
Existem homens e mulheres consumidos pela fé, pela ambição, pelo medo ou pela busca desenfreada por conhecimento.
Yharnam parece uma cidade que já estava condenada muito antes da chegada do Caçador.
Cada rua transmite decadência.
Cada igreja parece esconder algum pecado.
Cada cadáver encontrado pelo caminho parece contar uma história interrompida.
A sensação constante é a de caminhar pelos restos de uma civilização que destruiu a si mesma.
E isso faz toda diferença.
Em muitos jogos o cenário serve apenas como pano de fundo.
Em Bloodborne, eu tive a impressão de que Yharnam era um personagem.
Quanto mais eu explorava, mais entendia seu passado.
E quanto mais eu entendia...
Mais perturbadora aquela cidade se tornava.
A Igreja da Cura e a queda da humanidade
Outra coisa que me chamou muita atenção foi perceber que quase todos os grandes acontecimentos da história possuem alguma ligação com a Igreja da Cura.
No início da campanha, ela parece representar esperança.
Uma instituição que utilizava o Sangue Sagrado para curar doenças e salvar vidas.
Mas basta continuar explorando para perceber que boa parte do horror de Yharnam nasceu justamente das ações da própria Igreja.
Foi interessante notar como muitos dos monstros mais importantes possuem ligação direta com ela.
A Fera Clerical e o próprio Padre Gaiscogne já deixa isso evidente logo nas primeiras horas.
Depois encontramos a Vigária Amélia, os Emissários Celestiais, as Falhas Vivas e tantas outras criaturas originadas dos experimentos realizados em busca da ascensão humana.
Quanto mais eu avançava na história, mais percebia uma ironia muito forte.
Na tentativa de se aproximarem dos Grandes Seres e alcançarem um estágio superior da existência, aqueles homens e mulheres acabaram perdendo justamente aquilo que os tornava humanos.
Bloodborne faz uma crítica muito interessante ao fanatismo religioso e à obsessão pelo conhecimento.
A fé deixa de representar esperança.
A ciência deixa de representar progresso.
E ambas passam a caminhar juntas rumo à destruição.
O sangue que prometia curar...
Foi o mesmo sangue que condenou toda uma civilização.
A escala dos horrores só aumenta e com ela a sensação de insignificância
Até determinado momento, eu acreditava que Bloodborne era uma história sobre uma cidade tomada por uma epidemia e por pessoas transformadas em feras. Mas, conforme fui entendendo melhor a lore, percebi que esse era apenas o primeiro capítulo de algo muito maior.
Conforme a história avança, Bloodborne revela que existe uma camada muito mais profunda por trás dos acontecimentos de Yharnam. Aos poucos, o jogo amplia sua escala e mostra que os mistérios daquela cidade vão muito além daquilo que parecia ser o foco inicial da aventura. Essa mudança acontece de forma gradual e foi um dos momentos que mais me surpreendeu durante a campanha.
Quanto mais eu avançava, mais entendia que adquirir conhecimento nem sempre significava encontrar respostas. Pelo contrário. Em Bloodborne, quanto maior é o conhecimento, maior é a percepção de que a humanidade ocupa um lugar insignificante diante do que se revelaria.
Até mesmo a mecânica de Discernimento reforça essa ideia.
Conforme aumentamos nosso entendimento sobre aquele universo, passamos a enxergar coisas que antes simplesmente não existiam aos nossos olhos. Detalhes escondidos na arquitetura e elementos que estavam ali desde o início mostram que a verdade sempre esteve diante de nós, mas nossa mente ainda não era capaz de percebê-la.
Achei essa forma de contar a história simplesmente brilhante. Em vez de dizer que o mundo mudou, Bloodborne mostra que quem mudou fui eu.
Um combate que mudou completamente minha forma de jogar
Se Demon's Souls e Elden Ring me ensinaram a esperar o momento certo para atacar, Bloodborne fez exatamente o contrário.
Ele me ensinou que, muitas vezes, a melhor defesa é continuar pressionando.
A mecânica de recuperar parte da vida atacando logo após sofrer dano é uma das melhores ideias que a FromSoftware já teve. Ela transforma completamente o ritmo do combate e faz com que cada luta seja muito mais agressiva.
No início apanhei bastante justamente porque insistia em jogar de forma defensiva. Só depois percebi que Bloodborne queria que eu enfrentasse o perigo de frente.
O sistema de aparar golpes com a arma de fogo fizeram esse sistema de Parry ser o meu favorito é extremamente satisfatório. Poucas sensações se comparam a de acertar o tempo perfeito de um disparo e emendar um ataque visceral.
As armas transformáveis também merecem um elogio.
Durante minha jornada fui convidado quase que por obrigação, tamanha minha curiosidade, a experimentar várias delas.
A forma como as armas alternam entre dois modos de combate muda completamente a dinâmica das batalhas. Joguei a primeira metade do jogo com o Machado do Caçador, upado +10 e com algumas gemas que aumentavam consideravelmente o dano causado era simplesmente possível ir com ele do início ao fim.
Mas também gostei muito da Espada Sagrada de Ludwig, da Lâmina da Misericórdia e da Lança Rifle, todas com estilos completamente diferentes.
Em Bloodborne não existem armas sem personalidade. Cada uma parece ter sido criada para oferecer uma experiência única.
Chefes que contam histórias
Depois de terminar Bloodborne, fiquei com a impressão de que seus chefes são muito mais do que grandes desafios.
Eles contam histórias.
O Padre Gascoigne representa o destino inevitável de muitos caçadores.
A Vigária Amélia simboliza a queda da Igreja da Cura e o preço pago por sua obsessão.
Rom, a Aranha Inexpressiva, muda completamente nossa percepção da história e marca um dos momentos mais impactantes da campanha
Percebi que derrotar um chefe em Bloodborne quase sempre significava descobrir mais uma peça daquele enorme quebra-cabeça.
The Old Hunters | Muito mais do que uma simples DLC
Depois de terminar a campanha principal resolvi fazer 100% de The Old Hunters.
E posso dizer, sem exagero, que ela está entre as melhores expansões que já joguei.
Em nenhum momento tive a sensação de estar diante de um conteúdo secundário.
Pelo contrário.
Ela aprofunda acontecimentos fundamentais da lore e responde diversas perguntas que a campanha principal deixa em aberto.
Foi ali que entendi melhor a tragédia envolvendo os antigos caçadores, os experimentos realizados pela Igreja da Cura e os acontecimentos na Vila dos Pescadores.
Além da narrativa, a expansão entrega alguns dos melhores chefes de todo o jogo.
A luta contra Ludwig, o Amaldiçoado foi uma das experiências mais marcantes que tive.
A primeira fase é brutal e mostra toda a monstruosidade causada pelo Sangue Antigo.
Mas quando começa a segunda fase e Ludwig recupera parte de sua consciência ao empunhar novamente a Espada Sagrada do Luar, acompanhada por uma trilha sonora extraordinária, a batalha ganha um significado completamente diferente.
Outro confronto inesquecível foi contra Lady Maria da Torre do Relógio Astral.
Uma luta elegante, técnica e intensa, onde cada golpe parece uma dança mortal.
E, claro, preciso falar do Órfão de Kos.
Sem dúvida foi um dos chefes mais difíceis que já enfrentei.
Sua agressividade quase não dá espaço para respirar.
Foram muitas derrotas até finalmente aprender seus movimentos.
Quando consegui vencê-lo, senti uma satisfação enorme.
Não apenas por derrotar um chefe extremamente difícil, mas porque aquela vitória parecia representar o encerramento de toda a tragédia construída pela expansão.
A Platina e o verdadeiro desafio dos Cálices
Completar a campanha é apenas parte da jornada.
Quem busca a Platina logo percebe que o maior desafio está escondido nos Cálices.
Confesso que, em alguns momentos, achei os labirintos um pouco repetitivos.
Mas nunca deixaram de ser desafiadores.
Foi ali que enfrentei alguns dos momentos mais difíceis de toda a minha experiência com Bloodborne.
O Cálice Amaldiçoado, que reduz nossa vida pela metade, muda completamente a forma de jogar.
Qualquer erro pode significar morte instantânea.
O Cão de Guarda dos Antigos Lordes já exige bastante concentração, mas quem realmente colocou minha paciência à prova foi a Amygdala.
Foram inúmeras tentativas.
Cada derrota me fazia entender um pouco melhor seus ataques.
Até que, finalmente, consegui vencer.
Quando o troféu de Platina apareceu na tela, a sensação foi de dever cumprido.
Não porque Bloodborne é um jogo injusto.
Muito pelo contrário.
Ele sempre me passou a impressão de que, se eu estava falhando, era porque ainda precisava aprender alguma coisa.
E foi justamente isso que tornou a conquista tão gratificante.
Direção de arte e trilha sonora
Mesmo jogando em 2026, Bloodborne continua sendo um dos jogos artisticamente mais bonitos que já vi.
Yharnam é uma cidade inesquecível.
As enormes catedrais, os castelos, os cemitérios, as ruas estreitas iluminadas apenas por lampiões e a sensação constante de decadência criam uma atmosfera que poucos jogos conseguiram reproduzir.
Diversas vezes parei apenas para observar o cenário.
Não porque havia algum item escondido.
Mas porque queria admirar aquele mundo.
A trilha sonora também merece todos os elogios.
Durante a exploração, o silêncio domina boa parte da experiência e aumenta ainda mais a tensão.
Já nas batalhas contra os chefes, entram corais grandiosos que transformam cada confronto em um verdadeiro espetáculo.
É o tipo de trilha que não serve apenas para acompanhar a ação.
Ela faz parte da narrativa.
Desempenho no PS5
Joguei toda a campanha, conquistei a Platina e fiz 100% da DLC no PS5 base.
É impossível ignorar que os 30 FPS e o frame pacing da versão original ainda incomodam em alguns momentos.
Bloodborne merece um remaster ou, no mínimo, uma atualização para aproveitar melhor o hardware atual.
Ainda assim, depois de algum tempo jogando, esses problemas acabam ficando em segundo plano.
A qualidade da experiência fala mais alto.
Veredito
Depois de mais de 80 horas explorando Yharnam, conquistando a Platina, concluindo todos os Cálices e finalizando 100% de The Old Hunters, posso dizer que Bloodborne se tornou um dos jogos mais especiais que já joguei.
Não apenas pelo desafio.
Nem apenas pelo combate.
O que realmente me marcou foi a forma como ele confia no jogador.
Bloodborne nunca tentou me entregar respostas prontas. Ele me fez observar, interpretar, criar teorias e conectar acontecimentos por conta própria. Poucos jogos conseguem despertar essa curiosidade.
Mesmo depois de terminar tudo, continuo pensando em Yharnam, em seus personagens, em suas tragédias e nos inúmeros mistérios que talvez nunca tenham uma resposta definitiva.
E acho que esse é o maior mérito de Bloodborne.
Ele não termina quando sobem os créditos.
Ele permanece na nossa cabeça.
É uma obra que respeita a inteligência do jogador, recompensa quem presta atenção aos detalhes e transforma a exploração em parte fundamental da narrativa.
Para mim, Bloodborne representa o auge da FromSoftware. Um jogo que une combate refinado, direção de arte impecável, trilha sonora memorável e uma das narrativas mais inteligentes que já encontrei nos videogames.
Nota: 10/10.
Uma obra-prima atemporal que permanece como um dos maiores legados da FromSoftware e um dos melhores exclusivos da história do PlayStation
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