ANÁLISE | Nine Sols: a experiência completa após a platina



Em um mercado repleto de metroidvanias, Nine Sols consegue se destacar ao construir uma identidade própria.

Desenvolvido pela Red Candle Games, o jogo mistura combate técnico, exploração, ficção científica, filosofia oriental e uma direção de arte marcante para entregar uma experiência que permanece na memória muito tempo depois dos créditos finais.



O famoso "Sekiro 2D"


A comparação existe por um motivo. O combate de Nine Sols é baseado em leitura de movimentos, timing e aparos precisos. Assim como em Sekiro: Shadows Die Twice, apertar botões sem pensar raramente funciona.

Cada confronto exige atenção total. O sistema de parry é o coração da jogabilidade, e a sensação de dominar uma luta difícil é uma das maiores recompensas que o jogo oferece. O aprendizado acontece naturalmente: você não vence porque ficou mais forte, mas porque se tornou um jogador melhor.

Mas reduzir Nine Sols a um "Sekiro 2D" seria injusto. O jogo usa essa inspiração como base para criar algo com identidade própria.



Taopunk: uma identidade única


Um dos maiores diferenciais de Nine Sols é seu universo Taopunk.

Uma forma simples de entender o conceito é compará-lo ao Cyberpunk. Enquanto obras como Cyberpunk 2077 exploram um futuro dominado por megacorporações, implantes cibernéticos e decadência urbana, Nine Sols segue outro caminho. Sua visão de futuro mistura tecnologia avançada, inteligência artificial e engenharia genética com filosofia taoista, espiritualidade e influências da cultura chinesa.

O resultado é um mundo fascinante que consegue parecer futurista e ancestral ao mesmo tempo.

Essa combinação faz com que New Kunlun seja um dos cenários mais originais que surgiram nos videogames nos últimos anos.



Uma direção de arte impressionante


Visualmente, Nine Sols é um espetáculo.

Os cenários desenhados à mão, as animações fluidas e o uso das cores criam uma identidade visual instantaneamente reconhecível. Há momentos em que o jogo parece uma animação interativa, alternando entre ambientes tecnológicos futuristas e construções inspiradas pela cultura oriental.

A qualidade artística não está apenas nos cenários. Os personagens, chefes e cenas narrativas possuem um nível de detalhamento que ajuda a dar vida ao mundo e reforça a atmosfera melancólica e contemplativa da aventura.



Uma história que vai muito além da vingança


A jornada de Yi começa com uma motivação simples: vingança.

Mas conforme a narrativa avança, a trama passa a explorar temas muito maiores, como mortalidade, legado, transcendência, memória, humanidade e a relação entre tecnologia e espiritualidade.

O grande mérito da história está em como ela desenvolve seus personagens. Os chamados Nove Sóis não são apenas obstáculos a serem derrotados. Cada um possui sua própria visão de mundo, suas motivações e sua importância para a construção daquele universo.

Além disso, o jogo encontra espaço para construir relações genuínas entre seus personagens. Figuras como Kuafu e Shuanshuan acabam se tornando muito mais do que simples NPCs que oferecem diálogos ou missões. Em meio a um mundo marcado por tragédias, perdas e conflitos, eles representam algo raro: amizade, confiança e companheirismo.

É justamente através dessas relações que Nine Sols ganha parte de sua força emocional. A jornada de Yi não é apenas sobre vingança ou redenção, mas também sobre as conexões que ele cria pelo caminho e como essas pessoas influenciam sua visão do mundo.

É uma narrativa que consegue ser emocional, filosófica e impactante sem perder o foco na jornada principal.



Chefes memoráveis


Os chefes são um dos pontos altos do jogo.

Cada batalha apresenta mecânicas próprias e exige adaptação constante. Não basta decorar padrões; é preciso entender o ritmo do combate e executar os movimentos com precisão.

As lutas conseguem equilibrar espetáculo visual e profundidade mecânica, criando alguns dos confrontos mais marcantes que o gênero já recebeu nos últimos anos.



Dificuldade elevada, mas justa


Nine Sols é um jogo exigente.

A curva de aprendizado pode assustar nas primeiras horas, principalmente para quem não está acostumado com sistemas focados em parry. Porém, a dificuldade raramente parece forçada ou punitiva demais.

Quando a derrota acontece, normalmente fica claro o que poderia ter sido feito melhor. Isso cria uma sensação constante de evolução e faz com que cada vitória seja realmente satisfatória.

Posso afirmar isso após ter platinado Nine Sols no PS5 base. Foram dezenas de horas enfrentando chefes, explorando cada canto do mapa, completando missões secundárias e dominando suas mecânicas. Em nenhum momento tive a sensação de que o jogo estava sendo injusto. Pelo contrário: cada derrota servia como aprendizado para a próxima tentativa.

Vale destacar também o excelente trabalho de otimização. Durante toda a minha jornada rumo à platina no PS5 base, o jogo se manteve estável, com carregamentos rápidos e desempenho consistente, algo fundamental em uma experiência que exige precisão constante dos comandos.

Veredito


Nine Sols reúne tudo aquilo que se espera de um grande jogo: combate excepcional, direção de arte deslumbrante, excelente construção de mundo, chefes memoráveis e uma narrativa que permanece com o jogador mesmo após o fim da aventura.

Mais do que um ótimo metroidvania, é uma obra com personalidade própria. Um jogo que entende exatamente o que quer ser e executa sua proposta com um nível de qualidade impressionante.

Nota: 9,5/10


Para fãs do gênero, Nine Sols é obrigatório. Sem exagero, ele merece ser colocado ao lado de Hollow Knight, Ori and the Will of the Wisps e Blasphemous. Não porque tenta imitá-los, mas porque alcança um nível de qualidade que o coloca naturalmente nessa prateleira.

Depois de conquistar a platina no PS5 base, posso dizer com tranquilidade que Nine Sols foi uma das experiências mais marcantes que tive nos últimos anos.

No fim, porém, o que mais ficou comigo não foram os chefes, os desafios ou a própria platina. Foram Yi, Kuafu, Shuanshuan e os laços construídos ao longo da jornada. Porque Nine Sols entende algo que muitos jogos esquecem: grandes histórias não são feitas apenas de batalhas épicas, mas também de amizade, sacrifício e das pessoas que encontramos pelo caminho.

 

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