Blood Message é capa da EDGE 427: uma história real, o passado de Pei e tudo o que a revista revelou
Reportagem de capa traz novos detalhes sobre Pei Changguan, a origem histórica da jornada, o combate menos roteirizado do que parece, o uso da câmera e as referências por trás de um dos projetos mais ambiciosos da NetEase
Blood Message voltou aos holofotes, desta vez ocupando a capa da EDGE #427. A tradicional revista britânica dedica sua principal reportagem ao novo jogo da 24 Entertainment Lin'an, com direito a hands-on e uma longa conversa com o produtor e diretor criativo Xingyan Gu sobre história, combate, construção do mundo e, principalmente, a tentativa de transformar uma aventura linear em algo que carregue linguagem de cinema sem esquecer que continua sendo um videogame.
A própria capa resume a ambição em duas palavras: “Absolute Cinema”.
Não é apenas uma frase de efeito. Depois de uma demonstração jogável no Summer Game Fest, 19 minutos de gameplay publicados oficialmente e agora as novas informações da EDGE, começa a ficar mais claro o que o estúdio entende por uma experiência cinematográfica. E a resposta é mais interessante do que simplesmente colocar cutscenes bonitas entre uma luta e outra.
O primeiro AAA single-player da NetEase
Blood Message está sendo desenvolvido pela 24 Entertainment Lin'an Studio, ligada à divisão ThunderFire da NetEase Games. A própria companhia apresenta o projeto como seu primeiro AAA totalmente voltado para uma experiência single-player.
A proposta também foge do modelo de mundo aberto que dominou boa parte dos grandes lançamentos dos últimos anos. Oficialmente, Blood Message é definido como uma aventura de ação linear, cinematográfica e guiada pela narrativa, desenvolvida na Unreal Engine 5 e complementada por ferramentas e tecnologias proprietárias do estúdio.
A história levará o jogador por uma viagem de aproximadamente 3.000 li, cerca de 1.000 milhas ou 1.600 quilômetros, atravessando regiões inspiradas pelo leste e centro da Ásia até Chang'an, então coração do Império Tang.
É uma mudança de terreno considerável para uma empresa cuja divisão de jogos ficou fortemente associada a experiências online. A própria NetEase parece saber o tamanho dessa aposta: no anúncio original, o produtor Zhipeng Hu tratou Blood Message como a primeira experiência da companhia completamente focada no single-player após duas décadas atuando na indústria.
Por trás de Blood Message existe uma história que realmente aconteceu
É aqui que o projeto começa a se separar de uma simples aventura ambientada na China antiga.
Blood Message se passa em 848 d.C., nos últimos anos da Dinastia Tang, tendo como pano de fundo a revolta ocorrida em Shazhou contra o domínio do Império Tubo, associado historicamente ao Império Tibetano.
O personagem Zhang Yichao não é uma invenção do jogo. Ele realmente existiu e liderou, em 848, uma revolta em Dunhuang contra o domínio tibetano. Fontes acadêmicas sobre o período confirmam o levante e a importância que Zhang Yichao assumiria posteriormente na região.
É a partir desse episódio histórico que a EDGE explica a premissa por trás do jogo.
Segundo a reconstrução apresentada pela revista, dez grupos de mensageiros foram enviados por Zhang Yichao, seguindo rotas diferentes através do deserto e de territórios hostis na tentativa de alcançar a corte Tang e comunicar a vitória, buscando reconhecimento e apoio. A reportagem relata que apenas um indivíduo conseguiu finalmente chegar a Chang'an, em 851.
Blood Message transforma essa história em uma jornada ficcional.
Não estamos, portanto, diante de um jogo que apenas escolheu a Dinastia Tang porque armaduras, desertos e espadas produzem boas imagens. O acontecimento histórico existe no centro da própria narrativa.
O “herói sem nome” tem nome
Desde sua apresentação, a NetEase descreve o protagonista de Blood Message como um “nameless messenger”, um mensageiro sem nome.
Só que ele tem nome: Pei Changguan.
A EDGE finalmente ajuda a entender a escolha das palavras. Xingyan Gu explica que “sem nome” deve ser compreendido no sentido histórico. Pei não é um homem literalmente sem identidade, mas uma representação das incontáveis pessoas comuns que participaram de acontecimentos importantes e nunca chegaram aos registros que atravessaram os séculos.
Segundo Gu, os verdadeiros mensageiros daquele período provavelmente incluíam trabalhadores e monges.
Pei é uma criação fictícia construída a partir dessa ideia. Longe de começar a história como um lendário guerreiro ou grande general, ele trabalha como pedreiro em sua cidade natal. É seu filho, Ning, quem possui ambições maiores e deseja participar da revolta de Shazhou seguindo Zhang Yichao.
Quando Ning parte, Pei vai atrás dele.
O restante da história permanece protegido pelo estúdio, mas já sabemos onde esse caminho terminará: em algum momento, aquele pedreiro será colocado no centro da viagem que dá nome ao jogo.
Talvez seja justamente aí que esteja a parte mais interessante da proposta. A NetEase não quer contar a História através daquele cujo nome foi eternizado, mas através de alguém que poderia ter sido esquecido por ela.
O “mensageiro sem nome” de Blood Message tem nome. O que ele não tem é um lugar nos livros de História.
Mas Pei provavelmente não é apenas um pedreiro
A própria demonstração apresentada à imprensa levanta outra pergunta.
Quando Pei retorna à sua cidade e encontra soldados Tubo, sua reação não combina exatamente com a de alguém que nunca segurou uma espada. Mesmo encurralado, ele consegue reagir, desarmar adversários e transformar situações aparentemente perdidas em confrontos violentos.
A EDGE questiona justamente essa discrepância.
Xingyan Gu reconhece que seria difícil acreditar que um trabalhador sem qualquer experiência em combate pudesse atravessar uma jornada daquele tamanho enfrentando tantos inimigos. Por isso, existe uma explicação narrativa para as habilidades de Pei que o estúdio ainda não revelou por completo.
O detalhe é pequeno, mas muda nossa leitura do protagonista.
Sabemos quem Pei aparenta ser no início da história. Ainda não sabemos tudo sobre quem ele foi antes dela.
Parece uma cena de filme, mas não acontece sempre do mesmo jeito
Esse talvez seja o detalhe mais interessante descoberto pela EDGE durante o hands-on.
Quando a revista jogou a demonstração de Blood Message no Summer Game Fest Play Days, várias situações pareciam fortemente roteirizadas. Inimigos agarram Pei, QTEs surgem, personagens utilizam elementos do cenário e os confrontos fluem com uma naturalidade que pode dar a sensação de que estamos simplesmente seguindo uma enorme coreografia pré-programada.
Só depois do fim do embargo a EDGE conseguiu comparar sua experiência com gravações de outras pessoas jogando a mesma demonstração.
E percebeu que as coisas não aconteciam necessariamente da mesma maneira.
Situações aparentemente roteirizadas variavam. Até momentos em que Pei era imobilizado por inimigos e uma interação começava podiam surgir em circunstâncias diferentes.
Isso ajuda a entender o significado de “cinematográfico” para o estúdio.
A intenção não parece ser fazer o jogador reproduzir exatamente uma cena planejada pelo diretor. A inspiração está mais próxima de uma boa sequência de artes marciais, na qual tudo parece coreografado quando assistimos, mas os personagens transmitem a sensação de estarem improvisando e sobrevivendo com aquilo que encontram ao redor.
Um inimigo pode virar obstáculo para outro. Objetos próximos podem entrar no confronto. Posições diferentes geram interações diferentes.
O espetáculo continua dirigido, mas existe jogo acontecendo por baixo dele.
O gameplay de 19 minutos ajudou a provar que o jogo existe fora dos trailers
A NetEase publicou depois do Summer Game Fest uma demonstração completa de 19 minutos, ambientada em Shazhou City.
E há uma observação importante no próprio material oficial: aquelas imagens foram capturadas diretamente de uma versão inicial do jogo.
No trecho, vemos ataques leves e pesados, esquiva, bloqueio, parry, contra-ataques e execuções. Há também furtividade, confrontos envolvendo vários inimigos e uma grande sequência de perseguição.
Isso não significa que o produto final será exatamente aquilo. Pelo contrário, a identificação como uma build inicial deixa espaço para mudanças de animação, interface, balanceamento e acabamento.
Mas elimina uma dúvida mais importante: Blood Message já existe como uma experiência jogável suficientemente desenvolvida para ter sido colocada nas mãos da imprensa.
A Game Informer, que também teve acesso à demonstração, observou que a distribuição dos comandos pode lembrar um Souls, mas foi bastante clara ao dizer que Blood Message não funciona como um Soulslike. Na build testada, o combate também não foi considerado especialmente difícil. O destaque estava no peso dos golpes, nos parries, nas animações e na maneira como tudo se conecta à apresentação cinematográfica.
Quase 20 minutos sem cortar a câmera
Outra escolha que ajuda a explicar o “Absolute Cinema” estampado na capa da EDGE está na câmera.
A demonstração acompanhada pela revista acontece quase inteiramente como uma tomada contínua, com pequenas interrupções para situações específicas, como closes em determinados objetos.
É impossível não lembrar dos God of War mais recentes.
E Xingyan Gu não foge da comparação. A equipe admira o trabalho realizado pela Santa Monica Studio e a maneira como God of War utiliza sua câmera contínua, mas isso não significa que Blood Message seguirá rigidamente a mesma regra durante toda a campanha.
A lógica aqui é funcional.
Em combate, exploração e furtividade, tomadas mais longas ajudam a preservar a sensação de presença e continuidade. Durante diálogos, porém, a câmera pode abandonar essa abordagem, mudar de personagem, buscar outros enquadramentos e controlar o ritmo da cena de maneira mais tradicional.
Ou seja: Blood Message não está prometendo ser um jogo inteiro em plano-sequência.
A câmera será utilizada de acordo com aquilo que cada momento precisa.
Essa talvez seja uma decisão mais interessante do que simplesmente transformar a ausência de cortes em uma característica técnica para ser exibida.
Naughty Dog, Sifu e Ghost of Tsushima estão entre as referências
As comparações com Uncharted não surgiram apenas entre jogadores ou jornalistas.
Na própria EDGE, Xingyan Gu coloca a Naughty Dog entre as referências da equipe quando o assunto são experiências cinematográficas interativas. A 24 Entertainment também estudou jogos como Sifu e Ghost of Tsushima, especialmente observando a construção das sequências de ação, a câmera e a maneira como determinadas mecânicas produzem emoções no jogador.
E essa não é a primeira vez que alguém ligado ao projeto cita diretamente os jogos da Naughty Dog.
Em entrevista à TechRadar, o diretor sênior de publicação global Jeff Hu mencionou nominalmente Uncharted e The Last of Us entre os títulos admirados pela equipe.
Isso muda bastante a natureza dessas comparações.
Não estamos tentando dizer que Blood Message é “Uncharted na China” apenas porque existe uma perseguição espetacular ou porque personagens escalam paredes. Os próprios responsáveis pelo projeto reconhecem que estudaram algumas das grandes referências modernas desse tipo de aventura.
A diferença será descobrir o que a 24 Entertainment conseguirá fazer com essas influências dentro de uma história, cultura e identidade visual próprias.
A China antiga não está ali apenas para ficar bonita
Outro ponto da reportagem que merece atenção é o trabalho de pesquisa histórica.
Gu explica que a produção conta com especialistas dentro da própria equipe e consultores externos, incluindo pesquisadores ligados a Dunhuang, professores universitários e historiadores que analisam objetos, arquitetura e outros elementos em busca de possíveis anacronismos.
As imagens publicadas pela EDGE mostram esse trabalho em concept arts de armas, equipamentos de cerco, luminárias, esculturas e construções.
Mas a intenção não é transformar o jogo em uma reconstrução arqueológica inflexível.
Quando precisão histórica e funcionamento do videogame entram em conflito, existe discussão dentro da equipe. Uma arma completamente correta para determinada época, por exemplo, pode não funcionar adequadamente dentro do sistema de combate. Nesse caso, os desenvolvedores procuram uma solução que preserve a coerência histórica sem sacrificar o jogo.
O mesmo vale para os cenários.
Muitos lugares utilizados como referência continuam existindo atualmente, mas a equipe não quer simplesmente recriá-los como museus digitais. As construções precisam parecer habitadas, carregar sinais de que pessoas viveram ali e, ao mesmo tempo, funcionar como espaços interessantes para exploração.
A intenção parece estar no equilíbrio: ser historicamente reconhecível sem permitir que a precisão paralise a experiência.
Uma história chinesa feita para não depender de conhecer a História da China
Há ainda uma preocupação interessante por trás dessa quantidade de pesquisa.
Jeff Hu disse à TechRadar que a escolha dessa história não aconteceu porque a equipe queira transformar o jogo em uma aula de História para o público ocidental. O objetivo, segundo ele, é utilizar aquele contexto para trabalhar sentimentos que não dependem do conhecimento prévio sobre a Dinastia Tang.
No centro disso está a relação entre pai e filho.
Família, lealdade, sacrifício, dever e sobrevivência aparecem desde a primeira apresentação de Blood Message. É através desses elementos que a 24 Entertainment pretende transportar uma história extremamente localizada no tempo e no espaço para jogadores que talvez nunca tenham ouvido falar de Shazhou ou Zhang Yichao.
A História fornece o tamanho da jornada.
Pei e Ning precisam fornecer o motivo para nos importarmos com ela.
E quais consoles receberão Blood Message?
Aqui é importante separar o que parece óbvio daquilo que realmente foi anunciado.
Oficialmente, Blood Message está em desenvolvimento para PC e consoles.
Até agora, a NetEase não individualizou quais consoles receberão o jogo em sua comunicação oficial. Portanto, por mais natural que seja imaginar versões para PS5 e Xbox Series X|S, o correto neste momento é não tratar nenhuma das duas como plataforma formalmente anunciada.
O mesmo vale para a data.
Blood Message ainda não possui data ou janela oficial de lançamento.
A ficha da própria EDGE #427 continua apresentando o lançamento como TBA, e a comunicação mais recente da NetEase mantém apenas PC e consoles.
Blood Message já não é apenas aquele jogo bonito que apareceu em um trailer
Quando Blood Message surgiu, era fácil resumir a conversa às imagens impressionantes e às inevitáveis comparações com algumas das maiores aventuras cinematográficas da indústria.
Depois do Summer Game Fest e principalmente da EDGE #427, existe muito mais para observar.
Sabemos agora que Pei Changguan não nasceu como um grande guerreiro, mas como um pedreiro fictício inserido em uma história inspirada por pessoas reais cujos nomes desapareceram. Sabemos que a viagem de aproximadamente 1.000 milhas parte de um acontecimento ocorrido durante a revolta de Shazhou. Sabemos que suas habilidades de combate escondem uma explicação ainda não totalmente revelada.
Também sabemos que aquilo que parece uma sequência rigidamente coreografada pode variar de uma partida para outra, que o plano contínuo utilizado na demonstração é uma ferramenta e não uma regra e que a equipe estudou abertamente Naughty Dog, Sifu, Ghost of Tsushima e God of War enquanto buscava sua própria maneira de aproximar cinema e videogame.
Ainda falta descobrir o mais difícil: se tudo isso consegue permanecer interessante durante uma campanha inteira.
Mas talvez seja justamente por isso que a capa da EDGE seja tão significativa.
Blood Message ainda não tem data. Ainda não especificou seus consoles. Ainda guarda boa parte da história de Pei e Ning.
Mesmo assim, já deixou de ser uma promessa sustentada apenas pela aparência.
O que vimos até agora mostra um projeto tentando usar história, combate, câmera e narrativa como partes da mesma ideia. Se a 24 Entertainment conseguir sustentar no jogo completo aquilo que mostrou em aproximadamente 20 minutos, a frase estampada na capa da EDGE talvez deixe de parecer apenas uma ótima chamada de revista.
“Absolute Cinema” pode acabar sendo exatamente o que Blood Message está tentando entregar.
Fontes: [EDGE #427 – Special Delivery] | [NetEase Games] | [Blood Message – gameplay oficial] | [TechRadar]
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