Resenha | Homem-Aranha: Um Novo Dia acerta ao trazer Peter Parker de volta ao centro | SEM SPOILER


 

Com uma ótima participação do Justiceiro, referências espalhadas por toda parte e um Peter Parker mais experiente, o novo filme encontra força justamente ao se aproximar das raízes do personagem.

A ideia era assistir a Homem-Aranha: Um Novo Dia no dia 29 de julho. Os ingressos estavam comprados e tudo estava programado, mas as fortes rajadas de vento que atingiram o Rio de Janeiro naquela tarde causaram uma série de transtornos que me impediram de chegar à sessão.

Naquele dia, os ventos ultrapassaram os 90 km/h em alguns pontos da cidade, provocando quedas de árvores, falta de energia e interrupções no transporte público. O filme precisou ficar para depois. Pelo menos o título acabou servindo de consolo: ainda bem que sempre existe um novo dia.

E a espera valeu a pena.

Saí da sessão com a sensação de que finalmente tinha assistido a um filme realmente interessado em acompanhar Peter Parker depois de tudo o que ele viveu. Não apenas o Homem-Aranha enfrentando outra ameaça, mas Peter tentando descobrir como continuar vivendo quando já não pode contar com boa parte das pessoas e das certezas que faziam parte da sua vida.

O filme não ignora o peso dos acontecimentos anteriores, mas também não transforma o personagem em alguém amargurado. Peter continua sendo reconhecível. Ainda fala demais durante as lutas, improvisa soluções no meio do caminho e tenta proteger pessoas que muitas vezes nem sabem que estão sendo protegidas por ele.

A diferença é que agora suas decisões parecem realmente pertencer a ele.

 


Um Peter Parker mais seguro, mas longe de ter todas as respostas

Nos filmes anteriores, essa versão do Homem-Aranha estava quase sempre ligada a alguma figura mais experiente. Tony Stark foi o exemplo mais evidente, mas Peter também viveu cercado pelos Vingadores, pela tecnologia e por acontecimentos que muitas vezes pareciam grandes demais para o herói de bairro que conhecemos, ou melhor, para o amigão da vizinhança.

Um Novo Dia reduz essa distância.

O filme coloca Peter novamente nas ruas, lidando com criminosos, policiais, pessoas comuns e problemas que fazem parte da rotina de Nova York. Ainda existem elementos maiores e personagens importantes do universo compartilhado, mas eles não apagam o protagonista.

Foi uma mudança necessária.

O Homem-Aranha sempre funcionou melhor quando os problemas de Peter Parker pareciam tão importantes quanto o vilão que estava enfrentando. Ele pode estar salvando a cidade e, ao mesmo tempo, preocupado com dinheiro, trabalho ou com a possibilidade de decepcionar alguém. Essa mistura é uma parte essencial do personagem.

Tom Holland parece mais à vontade nessa fase. Seu Peter continua jovem, mas já não passa a impressão de estar apenas tentando provar que merece usar o uniforme. Ele sabe o que precisa fazer quando coloca a máscara. O que ainda não sabe é como organizar a vida que existe por baixo dela.

É justamente aí que o tema do amadurecimento aparece de forma mais natural.

Não existe um discurso explicando que Peter cresceu. Percebemos isso na maneira como ele encara determinadas situações, no cuidado antes de envolver outras pessoas em seus problemas e até nos momentos em que fica claro que suas boas intenções nem sempre são suficientes.

Ele continua errando. E isso é importante.

Peter Parker não se torna interessante quando encontra todas as respostas, mas quando tenta fazer a coisa certa mesmo sem ter certeza de qual é a melhor decisão.

Tom Holland consegue carregar essa mudança sem abandonar o humor do personagem. O Homem-Aranha continua brincando durante as lutas, mas as piadas agora parecem vir de alguém que já passou por situações muito mais difíceis e aprendeu a utilizar o humor também como forma de controlar a tensão.

Para mim, esta é a melhor atuação de Tom Holland como Peter Parker até aqui. Talvez porque, desta vez, ele tenha mais espaço para simplesmente ser Peter, sem precisar dividir seu arco emocional com a apresentação de outro herói ou com acontecimentos maiores do MCU. Holland parece muito confortável no papel e consegue transmitir um personagem mais experiente sem perder características que sempre fizeram parte desta versão.

Isso também contribuiu bastante para que Um Novo Dia se tornasse meu filme preferido do Homem-Aranha protagonizado por Tom Holland. Não apenas pelas referências às HQs ou pelas cenas de ação, mas porque finalmente sinto que Peter Parker ocupa o centro da própria história do começo ao fim.

 


O Homem-Aranha volta a fazer parte de Nova York

Outro acerto é a forma como o filme utiliza a cidade.

Nova York não está ali apenas para oferecer prédios altos e boas cenas de balanço de teia. Existe uma tentativa de mostrar que o Homem-Aranha possui uma relação própria com aquele lugar. Ele conhece suas ruas, seus criminosos e algumas das pessoas que trabalham para mantê-las seguras.

É algo muito presente nas HQs.

Antes de se envolver com guerras cósmicas, realidades alternativas e ameaças capazes de destruir o planeta, o Homem-Aranha já estava enfrentando assaltantes, perseguindo vilões estranhos pelos telhados e discutindo com policiais que não sabiam se deveriam prendê-lo ou agradecer pela ajuda.

O filme recupera um pouco dessa energia.

Personagens como Escorpião, Tarântula, Boomerang e Lápide ajudam a reforçar a sensação de que existe uma vida de aventuras acontecendo em Nova York para além do grande conflito apresentado na trama. Nem todos recebem o mesmo destaque, mas suas presenças tornam aquele universo mais próximo das revistas.

Para quem acompanha as HQs, é divertido reconhecer esses nomes e imaginar quantos encontros com o Homem-Aranha já aconteceram antes ou ainda podem acontecer. Para quem conhece apenas os filmes, eles funcionam como parte daquele ambiente sem exigir qualquer conhecimento adicional.

Esse equilíbrio nem sempre é fácil.

Uma referência pode agradar ao leitor antigo sem interromper o filme para explicar sua importância. Um Novo Dia acerta na maior parte do tempo porque não trata cada personagem conhecido como uma grande revelação. Alguns simplesmente existem naquele mundo, como deveriam.

O melhor exemplo disso é Mac Gargan.

Michael Mando retorna ao personagem apresentado em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, mas agora finalmente assume a identidade do Escorpião. O filme não para para explicar quem construiu sua armadura, como ele conseguiu a cauda mecânica ou tudo o que aconteceu com Gargan desde sua última aparição.

Ele surge usando o traje e pronto.

A ausência de uma explicação poderia parecer um problema, mas funciona muito bem porque reforça a ideia de que aquele universo não ficou congelado enquanto não estávamos olhando. Peter continuou agindo como Homem-Aranha, criminosos continuaram aparecendo e alguns inimigos evoluíram nesse intervalo.

Não precisamos acompanhar a origem de cada uniforme para acreditar que aqueles personagens possuem uma história.

Depois de tantos filmes de super-heróis preocupados em explicar cada detalhe, é até bom ver uma produção confiando que o público conseguirá juntar as peças sozinho.

 


Balançar entre os prédios volta a ser um espetáculo

As cenas de web swing estão entre as melhores do filme.

Pode parecer estranho destacar algo tão básico em uma produção do Homem-Aranha, mas nem todos os filmes aproveitaram da mesma maneira o que existe de especial em acompanhar o personagem se deslocando por Nova York.

Em Um Novo Dia, o balanço de teia não serve apenas para levar Peter de uma cena até outra. A câmera acompanha sua movimentação, permite que os mergulhos ganhem velocidade e mostra o corpo do herói reagindo ao impulso de cada teia.

Há momentos nos quais quase conseguimos sentir a queda antes de Peter lançar a próxima teia.

As sequências também apresentam uma visão mais ampla da cidade. Vemos o Homem-Aranha atravessando ruas, desviando de estruturas e utilizando os prédios como parte de sua movimentação. Não é apenas uma animação bonita acontecendo diante de um cenário digital. Existe a sensação de que ele realmente conhece aquele espaço.

Foi uma das coisas que mais gostei de assistir.

Por melhor que seja uma cena de luta, existe algo muito próprio do Homem-Aranha no simples ato de vê-lo saltar de um prédio e atravessar Nova York. É uma imagem que acompanha o personagem desde as HQs e que ganhou novas possibilidades quando chegou aos cinemas e aos videogames.

 


A influência dos jogos da Insomniac

Essa movimentação também revela uma influência muito forte dos jogos desenvolvidos pela Insomniac.

Quem jogou Marvel’s Spider-Man ou Marvel’s Spider-Man 2 provavelmente reconhecerá algo familiar nas acrobacias, nas mudanças rápidas de direção e, principalmente, na maneira como Peter combina golpes, teias e elementos do cenário durante as lutas.

A influência não aparece apenas em um movimento isolado.

O Homem-Aranha do filme luta com a mesma criatividade que tornou os combates dos jogos tão divertidos. Ele prende inimigos, utiliza objetos ao redor e passa rapidamente de um oponente para outro. Algumas finalizações parecem ter saído diretamente do repertório que usamos no controle.

Tom Holland confirmou que os golpes de finalização dos jogos serviram como referência, enquanto Destin Daniel Cretton contou que vários integrantes da equipe eram fãs das produções da Insomniac e ajudaram a selecionar movimentos que poderiam funcionar no cinema.

É uma influência que combina perfeitamente com esta versão mais experiente do personagem.

Os jogos da Insomniac apresentaram um Peter que já atua há anos e sabe utilizar seus poderes de forma quase instintiva. Ele não precisa parar para descobrir o que consegue fazer. Analisa o ambiente e transforma qualquer coisa disponível em parte de sua estratégia.

O Peter de Um Novo Dia transmite algo parecido.

Não significa que ele se tornou invencível ou que tudo acontece conforme o planejado, mas sua maneira de lutar mostra que estamos acompanhando alguém que acumulou experiência. Ele parece mais confiante com os próprios movimentos e muito mais criativo ao utilizar as teias.

O filme não copia os jogos. Ele reconhece que a Insomniac encontrou uma das melhores representações modernas do que significa movimentar-se e lutar como o Homem-Aranha e utiliza isso como inspiração.

Para quem acompanha o personagem também nos videogames, a influência é fácil de perceber e muito bem-vinda.

 


Sadie Sink encontra seu espaço sem precisar revelar tudo

Também não é possível falar muito sobre a personagem de Sadie Sink sem estragar parte da experiência.

O melhor é permitir que o público descubra sozinho quem ela é e qual papel ocupa naquela história.

O que pode ser dito é que Sink representa uma ótima adição a esse universo. Sua personagem não está ali apenas para provocar especulações ou aparecer como uma surpresa isolada. Ela possui uma motivação própria, interfere diretamente no caminho de Peter e encontra espaço dentro da narrativa.

Sadie Sink consegue transmitir a impressão de que existe muito mais acontecendo com a personagem do que aquilo que o filme entrega imediatamente.

Em determinados momentos, ela parece vulnerável. Em outros, existe uma intensidade que muda completamente a energia da cena. Essa variação ajuda a manter a curiosidade sem fazer com que a personagem pareça construída apenas em torno de um segredo.

Sua presença também não tira Peter do centro.

Ela acrescenta outro ponto de vista à história e participa de momentos importantes, mas o conflito continua ligado ao Homem-Aranha e àquilo que ele está vivendo. É uma personagem que já funciona dentro deste filme, independentemente do que o futuro possa reservar para ela.

 


O Hulk tem uma razão para estar nesta história

A presença do Hulk era uma das minhas maiores preocupações antes de assistir ao filme.

Depois de Tony Stark, Nick Fury e Doutor Estranho, havia o risco de mais uma produção do Homem-Aranha utilizar um personagem conhecido do MCU apenas para aumentar a escala da história e ocupar parte da divulgação.

Felizmente, o Hulk não está no filme apenas para ser mais um grande nome dentro de uma história que deveria pertencer ao Homem-Aranha.

Sua participação se encaixa muito bem na proposta do longa e possui uma função clara dentro do que Peter está enfrentando. O personagem não aparece apenas para oferecer uma grande cena de ação ou para lembrar ao público que aquela aventura acontece no mesmo universo dos Vingadores.

Existe um motivo narrativo para sua presença.

Bruce Banner também não ocupa automaticamente o papel de mentor de Peter. Ele possui conhecimento e experiência, mas não surge como alguém que tem todas as respostas ou que resolverá o problema pelo protagonista.

Isso faz diferença.

O filme utiliza aquilo que Bruce e o Hulk representam sem permitir que a participação tome conta da história. Mesmo nos momentos em que a escala aumenta, continuamos acompanhando as consequências pelo ponto de vista de Peter.

Era exatamente o equilíbrio de que o filme precisava.

A participação do Hulk amplia o universo ao redor do Homem-Aranha, mas não diminui sua importância dentro dele.

 


Homem-Aranha e Justiceiro funcionam melhor do que parecia possível

A participação que mais chama atenção é, sem dúvida, a de Frank Castle.

Homem-Aranha e Justiceiro formam uma dupla estranha, mas apenas até lembrarmos que essa relação existe praticamente desde o nascimento do próprio Justiceiro. Frank apareceu pela primeira vez em The Amazing Spider-Man nº 129, acreditando que o Homem-Aranha era um criminoso. Tenho essa edição em casa, e talvez por isso tenha sido ainda mais divertido ver os dois dividindo a tela tantos anos depois, agora em uma relação que carrega muito daquela diferença de princípios que sempre tornou seus encontros tão interessantes nas HQs.

Desde então, os encontros entre os dois quase sempre foram marcados pelo conflito entre suas formas completamente diferentes de combater o crime.

Peter se recusa a matar. Frank não acredita que todo criminoso mereça continuar vivo.

Essa diferença está presente no filme, mas sem transformar todas as conversas entre eles em discursos sobre moralidade. Ela aparece na forma como cada um age, reage e enxerga a presença do outro.

Jon Bernthal continua sendo um Justiceiro intenso e intimidador, enquanto Tom Holland utiliza muito bem o desconforto de Peter ao lidar com alguém que leva a violência até um ponto que ele jamais aceitaria.

O resultado é uma parceria que funciona demais.

Existe humor na relação, mas o filme não transforma Frank Castle em alívio cômico. As situações engraçadas surgem principalmente porque Peter e Frank são incompatíveis em quase tudo. O Homem-Aranha fala, provoca e tenta impedir que a situação saia do controle. O Justiceiro quer resolver o problema da maneira mais rápida e definitiva possível.

É claro que estamos falando de um filme do Homem-Aranha, feito para alcançar também um público mais jovem. Por isso, o Justiceiro foi adaptado a esse contexto. A violência não chega perto do que vimos em produções protagonizadas por Frank Castle, e determinadas características precisam ser controladas para que ele possa participar dessa história.

A mudança é perceptível, mas não incomoda.

Bernthal continua transmitindo o peso do personagem. Frank não parece ter se tornado mais gentil ou abandonado suas convicções. Ele apenas está dentro de um filme que possui outro tom e outro protagonista.

Essa adaptação poderia facilmente dar errado, principalmente se tentassem transformar o Justiceiro em uma versão domesticada de si mesmo. O filme encontra um meio-termo convincente e ainda aproveita a diferença entre os dois para mostrar muito sobre Peter.

Mesmo depois de tudo o que viveu, o Homem-Aranha ainda se recusa a aceitar que a violência definitiva seja a única resposta.

Isso não faz dele ingênuo. É apenas parte do herói que escolheu ser.

 


Jean DeWolff não está no filme por acaso

A presença de Jean DeWolff também merece atenção.

Nos quadrinhos, Jean construiu uma relação de confiança com o Homem-Aranha em uma época em que boa parte da polícia enxergava o herói como uma ameaça ou, no mínimo, como alguém atrapalhando o trabalho das autoridades.

Ela nunca foi apenas mais uma policial na vida de Peter.

Jean funcionava como uma ponte entre o Homem-Aranha e uma instituição que, durante muitos anos, não sabia exatamente como lidar com ele. Sua relação com o herói envolvia respeito, divergências e uma confiança construída aos poucos.

O filme entende essa importância e começa a desenvolver uma dinâmica interessante entre os dois.

Jean não aceita simplesmente tudo o que o Homem-Aranha faz, e por outro lado Peter parece completamente confortável em trabalhar ao lado da polícia. A relação funciona justamente porque nenhum dos dois abandona sua posição com facilidade.

Não é necessário conhecer a história da personagem para entender seu papel no filme. Ela funciona por conta própria e possui presença suficiente para despertar a curiosidade de quem nunca ouviu falar de Jean DeWolff.

Para os leitores das HQs, porém, existe um peso diferente naquele nome.

A maneira como o filme começa a construir a proximidade entre os dois inevitavelmente faz pensar no quanto essa relação ainda pode ser explorada. Jean está ligada a um dos períodos mais lembrados e emocionalmente difíceis da trajetória do Homem-Aranha, e algumas possibilidades surgem sem que o longa precise indicá-las diretamente.

Nada é confirmado e o filme não entrega uma pista óbvia sobre qual caminho pretende seguir.

Talvez nunca vejamos uma adaptação direta. Também não seria necessário repetir no cinema tudo o que aconteceu nas páginas. Mas a presença de Jean cria a oportunidade de, no futuro, explorar uma história mais pessoal sobre confiança, justiça e os limites que Peter se recusa a atravessar.

Quem conhece entenderá o que essa possibilidade representa.

Quem não conhece pode apenas acompanhar a relação entre os dois e perceber que ela ainda tem muito espaço para crescer.

 


As referências às HQs estão por toda parte

Um Novo Dia está cheio de referências.

Algumas estão nos personagens, outras em nomes, objetos e diálogos, mas as que mais me chamaram atenção foram as referências visuais às capas das HQs.

Existem momentos em que o posicionamento do Homem-Aranha, o enquadramento da cena e até a presença de outros personagens lembram imediatamente imagens conhecidas das revistas.

A capa de Amazing Fantasy nº 15 continua sendo uma das referências mais fáceis de reconhecer. Não poderia ser diferente. A imagem do Homem-Aranha balançando pela cidade enquanto carrega uma pessoa tornou-se uma das capas mais importantes da história dos quadrinhos.

 


A luta contra o Tarântula também recupera a composição de The Amazing Spider-Man nº 134, edição que marcou a primeira aparição do personagem. O rápido confronto com Boomerang lembra a capa de The Amazing Spider-Man nº 345.

 

 

Em outro momento, Lápide segura o Homem-Aranha no alto de um prédio praticamente da mesma maneira vista na capa de The Spectacular Spider-Man nº 142. É uma imagem que funciona naturalmente dentro da cena, mas que ganha outro peso para quem reconhece a referência.

 


 

O confronto com o Escorpião em meio ao cenário de inverno também veio diretamente dos quadrinhos. O momento em que Mac Gargan utiliza a cauda para atingir o Homem-Aranha recria a capa de Spider-Man Adventures nº 2, revista inspirada na animação dos anos 1990.

 

 

Mas nem todas as homenagens vêm de capas.

Em determinado momento envolvendo o Justiceiro, o filme faz uma referência visual bastante clara a Guerra Civil das HQ's. Quem conhece a história provavelmente vai reconhecer de imediato a composição escolhida, mas vale preservar a surpresa para quem ainda não assistiu.

A referência não está ali apenas para recriar uma imagem famosa. Ela combina com a relação desenvolvida entre os personagens e funciona dentro da situação apresentada pelo filme.

O melhor é que essas homenagens não interrompem a história.

Ninguém para para explicar qual edição está sendo lembrada, e o filme não exige que o público reconheça a referência para entender a cena. Elas estão ali para quem conhece, quase como um agradecimento aos leitores que acompanham o personagem há anos.

Isso fez diferença para mim.

Existe um tipo de empolgação muito específico em olhar para uma cena e pensar: “Eu conheço essa imagem de algum lugar”. Às vezes, não lembramos imediatamente o número da edição ou o artista responsável pela capa, mas a composição já está guardada na memória.

No meu caso, algumas dessas imagens são ainda mais familiares porque as revistas que serviram de inspiração para o filme fazem parte da minha própria coleção. É diferente reconhecer uma referência que vimos alguma vez na internet e reconhecer uma capa que já seguramos nas mãos, folheamos e temos guardada em casa. Talvez por isso esses pequenos detalhes tenham funcionado tão bem para mim.

Algumas referências são percebidas imediatamente. Outras são tão rápidas ou estão tão bem integradas às cenas que provavelmente continuarão rendendo novas descobertas quando o filme for revisto.

Não porque seja necessário analisar cada quadro para compreender a história, mas porque há muito carinho colocado nos detalhes.

O filme entende que o Homem-Aranha não começou no cinema.

Antes dos grandes efeitos visuais, das bilheterias bilionárias e das conexões com outros heróis, existiam páginas desenhadas, recordatórios, balões de pensamento e aquelas capas que precisavam convencer alguém a comprar a revista na banca.

As referências funcionam porque demonstram respeito por essa história sem transformar o longa em uma sequência de acenos para o público.

 


Uma nova fase que realmente parece nova

Homem-Aranha: Um Novo Dia não tenta apagar os filmes anteriores. Tudo o que aconteceu continua fazendo parte de Peter e influencia a maneira como ele se relaciona com o mundo.

Mas existe uma mudança clara.

O personagem está mais próximo das ruas, das HQs e dos conflitos que sempre fizeram dele um dos heróis mais populares da Marvel. Ele continua participando de um universo maior, mas não parece mais depender desse universo para justificar sua importância.

Peter Parker é novamente o centro da própria história.

Como leitor das HQs, foi muito bom assistir a um filme que não parece envergonhado das partes mais estranhas e específicas da mitologia do personagem. Justiceiro, Jean DeWolff, Escorpião, Boomerang, Tarântula, Lápide e tantas referências visuais poderiam resultar em uma produção preocupada apenas em agradar aos fãs.

Felizmente, existe uma história por trás de tudo isso.

A influência dos jogos da Insomniac torna a movimentação e os combates mais criativos. As cenas de balanço de teia devolvem à cidade parte da importância que ela sempre teve. Sadie Sink entra nesse universo como uma personagem que realmente acrescenta algo, enquanto o Hulk participa sem transformar Peter em coadjuvante do próprio filme.

É uma história sobre um Peter mais experiente, que já perdeu muito, mas ainda tenta encontrar espaço para continuar sendo o garoto que aprendeu, da maneira mais difícil, que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.

Nem todas as escolhas do filme funcionam com a mesma força, e alguns diálogos poderiam confiar mais no que as imagens e os atores já estão transmitindo. Mesmo assim, saí da sessão satisfeito e curioso para saber até onde essa nova fase pretende chegar.

Mais do que qualquer grande revelação ou participação especial, o que me deixou animado foi reconhecer novamente o Homem-Aranha que aprendi a gostar nas páginas das HQs.

Um herói que pode enfrentar qualquer ameaça, mas que nunca deixa de ser Peter Parker.

 




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